sábado, 27 de abril de 2013

Inicio Reinício - Amor

-Não quero te perder - disse ele abraçando-a, não apenas com os braços, mas com a sua aura que cintilava um rosa lindo.
Ela abriu um largo sorriso que refletia a luz de um sol transcendente e puro, as emoções no plano espiritual são muito mais fortes e vívidas.
-Não estamos indo para nos perder e sim para nos encontrar novamente, lembra? E provar da verdadeira bússola universal, o amor.
De um verdadeiro certo modo, o que ela sentia, ele sempre sabia reconfortar e transmutar. Não sentiam medo, estavam tomados por uma certeza única, de mãos dadas andaram até a luz, então as mãos antes juntas, se separaram e seus espíritos foram levados para mães diferentes, e noves meses terrenos depois, nasciam em hospitais distintos e longínquos.

Lutero

Desde o primeiro beijo aos 14 anos uma sensação o assombra, sendo mais aguda em dias frios e nublados: Ao beijar uma garota na saída da escola sentiu como se nunca nenhum lábio o fosse satisfazer interiormente. É claro que o corpo gostava do beijo e os hormônios de pré-adolescente agitavam-se. Mas algo no fundo de seu espírito trazia a falta e o vazio. Os beijos eram bons, porém, não eram complementares, não faziam o tempo fluir mais devagar e não marcavam aura com cores puras e sinceras. Com o rugir do tempo, os beijos tornaram-se ainda mais vazios até que ele perdeu completamente a vontade de outros lábios. Com essa necessidade de sentir demasiadamente para ter a certeza, tornou-se um empático notável, embora preferisse sentir e desbravar o vento e não as pessoas. Odeia filmes românticos, não pelo drama, mas por conta do vazio que eles despertam no coração, como se ele soubesse que pode viver um amor mais verdadeiro que qualquer filme, contudo não sabe como e por onde começar.

Letícia

O que mais gosta de fazer é olhar para o horizonte, principalmente o pôr do sol. Procura algo que as nuvens escurecendo ocultam entre as estrelas. Algo distante, mas de muita importância. Não se sente propriamente vazia, mas com a necessidade de encontrar algo muito precioso, sente que precisa partir em busca de um tesouro. 
Por este aspecto psicológico, as vezes foge de casa e corre pelas ruas. Como se fosse encontrar um diamante na próxima esquina, a família sempre a encontra em algum beco escuro e vazio, não chorando, mas com um olhar profundamente sem brilho. Passou por muitos relacionamentos intensos, não duraram. Despertavam certa intensidade, mas não tinham uma fórmula alquímica secreta que faz a intensidade permanecer e principalmente amadurecer: a sincronia.

Os Dias E Anos Vindouros

Lutero nunca viajou para fora da cidade onde nasceu, ganhou a casa dos pais depois que estes se foram. A partir de sua sensibilidade desenvolveu uma aversão a civilização, embora o coração o empurre para fora de casa. O tamanho do que ele sente o assusta, precisa de alguém para segurar sua mão, mas nunca nenhuma se encaixou com a sua: sombras que não formam nada  além de escuridão. A única vez que saiu de casa, foi quando seus pais ainda estavam vivos, na verdade, Lutero fugiu por três dias quando lua cheia reinava nas noites, chorando pelas ruas escuras e dormindo de dia na floresta, perguntava as pessoas desconhecidas se viram uma certa mulher com as descrições de seu mais profundo subconsciente. Ninguém nunca a vira, ninguém a conhecia. Ele não sabia que suas memórias eram de outra era. Vive agora do que planta em sua horta, acostumado com o seu vazio interior, às vezes, mas poucas vezes... olha para o horizonte, como se encontrasse outra pessoa que está olhando para ele também.

Letícia viajou e conheceu os grandes centros urbanos, os grandes monumentos históricos. Adquiriu grandes riquezas para tentar saciar a necessidade de algo além. Mas o dinheiro não satisfaz todas as pessoas. Algumas encontram sua alma gêmea nas notas de cem reais, não é o caso dela. Não possuía dinheiro para comprar as coisas que amava: O pôr do sol, a lua cheia que a ligava a algo ou alguém do outro lado do país ou a felicidade do amor que tanto almejava. Mesmo que vendesse a necessidade por outra metade de sua alma perdida, não conseguiria nem ao menos as estrelas.

Ela, morreu aos 78 anos e ele aos 84 anos. Morreram sem viver em plenitude porque o amor não teve dias floridos para aquelas duas almas, não se reencontram como haviam prometido um para o outro. Talvez não reencarnaram para aprender sobre o que mais sabiam: o amor. E sim, para aprender sobre o que não sabiam: a enorme falta que um amor verdadeiro causa. Sem o amor verdadeiro, a realidade é apenas ela mesma: dura e impenetrável, o corpo jamais acende a fogueira da essência e os olhos nunca imitam as estrelas a brilhar.

Quem sabe eles não se reencontraram além da realidade física, em outros mundos infinitamente maiores que este, mas que um único pensamento puxa para perto quem faz parte dos laços que nos atam.

L.A.

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